A Pontifícia Academia de Ciências do Vaticano conta com protestante
como seu presidente. O conselho é ocupado por grandes nomes da ciência
mundial, que orienta o Papa em questões científicas.
Werner Arber, biólogo molecular suíço, ganhador do Prêmio Nobel de
Fisiologia ou Medicina, em 1978, será o primeiro protestante a presidir a
Academia que conta com 80 membros, entre homens e mulheres. Eles não
precisam ser necessariamente católicos. Cerca de um terço dos membros
são vencedores do Prêmio Nobel.
O suíço Werner Arber foi Prêmio Nobel de Medicina em 1978. Ele é
professor aposentado de biologia molecular na Universidade da Basileia
e, há trinta anos, membro desse conselho papal.
Há três meses ele se tornou presidente da instituição. O Swissinfo, um
serviço do governo suíço de divulgação do país no exterior, fez uma
entrevista com o cientista.
O senhor preside a Pontifícia Academia de Ciências do Vaticano. Quais são suas funções nesse posto?
Werner Arber: Nós acompanhamos o progresso nas ciências e
refletimos o que este significa para a sociedade. Periodicamente informo
o Vaticano sobre as nossas reflexões.
Como primeiro protestante a chefiar a Pontifícia Academia de Ciências, o senhor é tratado de outra forma que se fosse católico?
W.A.: Eu não posso responder essa questão, pois não tenho
referências. Presumidamente tornei-me presidente porque as pessoas
perceberam que sou um cientista que demonstra ter um amplo campo de
interesses.
O Papa determina quais são os temas a serem analisados pela Pontifícia Academia de Ciências?
W.A.: Vez ou outra, na verdade raramente, o Vaticano manifesta um desejo.
Há alguns anos organizamos uma conferência sobre o “Momento da Morte”. A
questão era determinar se uma pessoa está morta quando seu coração ou o
cérebro param.
Esse foi um tema sugerido pelo Papa.
Quais foram as conclusões tiradas pela Academia?
W.A.: Depois de consultar especialistas da área médica,
chegamos à conclusão que a morte do cérebro é mais importante do que a
do coração. Em todo caso, é possível reanimar alguém depois que seu
coração cessa de bater.
Mas, honestamente, constatamos que nunca é possível determinar esse
quadro na base dos segundos. Existem pessoas que vivem há anos em um
quadro de coma. A medicina levanta a questão de saber quando é
eticamente responsável retirar um órgão.
Além disso, o Vaticano interessa-se pela pergunta: qual é o momento em
que a alma abandona o corpo. Obviamente não foi possível respondê-la do
ponto de vista científico.
Então a Pontifícia Academia de Ciências parece ser um órgão independente, de fato, do Vaticano?
W.A.: Sim, ela tem uma longa história. Dizem que existe há mais
de quatrocentos anos, desde o tempo de Galileu Galilei. Foi um momento
em que a Igreja cometeu muitos erros frente à ciência. Porém o Vaticano
tem consciência disso e reabilitou Galileu em 1992.
Qual é o nível de influência da Pontifícia Academia de Ciências em relação ao Papa?
W.A.: Eu diria que, vez ou outra, o Papa adota nossas reflexões
e as utiliza em seu conhecimento. Suas decisões são, então,
influenciadas por elas.
O que une o Papa às ciências?
W.A.: São questões como saber o que é a verdade!
Muitas outras pessoas também refletem sobre isso, sejam religiosas ou não.
O que é a verdade? De onde venho? O que irá ocorrer no futuro? São
também questões da evolução: qual a diferença entre a vida e a não-vida?
Por trás da evolução o Papa vê um “Creator Spiritus”, uma força que
planejou de forma direcionada a evolução, Deus. Como o senhor analisa
essa visão?
W.A.: As ciências não podem até hoje – o que talvez seja possível em
centenas de anos, não sei – provar se Deus existe ou não, não importando
o que seja.
Como cientista, não vejo nenhum desejo primordial de criar o ser humano.
Para ser sincero, nós precisamos determinar: é possível afirmar muita
coisa sobre a verdade, mas eu, como pesquisador da evolução, não posso
dizer como surgiu a primeira forma de vida.
Como a ciência explica isso?
W.A.: A ciência fala de auto-organização. Podemos dar
informações detalhadas sobre como a evolução funciona nos dias de hoje.
Podemos falar sobre a evolução cósmica ou sobre a evolução da vida. Se
sabe quando o sol terá consumido toda sua energia e deixará de ser o
sol.
Isso é parte de uma evolução natural. Até então teremos as diversas formas de vida sobre o nosso planeta.
Como devemos entender essa análise?
W.A.: Precisamos definir o que é a vida. A definição da NASA, a Agência
Espacial Americana, contém dois critérios para a vida: em primeiro
lugar, ele deve ser capaz de se reproduzir, ou seja, ter crias; em
segundo, a população deve ser capaz de se adaptar às novas condições de
vida, deve passar por uma evolução independente.
Esse é o caso no nosso planeta. Todos os seres vivos são capazes de
fazê-lo. Eu parto do princípio que isso é uma boa definição do que é a
“vida”.
O que pensam os Papas sobre essa ampla definição
W.A.: Em 1995, o Papa João Paulo II confirmou em uma audiência
com a Academia que é preciso levar em consideração que a vida passa por
uma evolução e possa se adaptar a outras condições. Ele não disse que
isso é um fato concreto, mas sim que é preciso levar esse ponto em
consideração.
O Papa Bento XVI não afirmou até agora nada contra isso. Porém que eu
saiba, ele também nunca debateu profundamente essa questão. Pessoas
próximas do Papa me disseram que a Igreja Católica vê na evolução
biológica e cósmica um processo de permanente criação.
Há alguns anos as universidades papais oferecem um programa denominado
STOQ (de science, theology and the ontologigcal quest, ou ciência,
teologia e a questão ontológica, a parte da filosofia que trata da
natureza do ser). Eu faço parte da comissão de planejamento desse
programa.
STOQ organiza seminários com a presença de cientistas, teólogos,
filósofos, filósofos da ciência e historiadores da ciência. Neles
discutem-se os pontos de confluência entre conhecimentos das ciências
naturais, doutrinas teológicas e a verdade.
Nesse programa discute-se também a questão de saber se a
diferença feita pela Igreja Católica entre homens e mulheres é
justificável?
W.A.: Tanto na Academia como também nesse programa atuam
mulheres. Eu não sei se a posição da mulher na sociedade e na Igreja já
foi um tema neles. No projeto STOQ – assim como na Pontifícia Academia
de Ciências do Vaticano – são debatidas questões ligadas às ciências
naturais e não sociais.
Fonte: Notícias Cristãs

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